Poema: “Ode à Fazenda”

Ode à Fazenda

I

Se sensível fosse, talvez olhasse à natureza e me admirasse da levitação de um beija-flor, de uma vaca desgarrada a pastar, ou mesmo rastros de onças, que sempre hei de encontrar.

II

Se sensível fosse, olharia ao céu diurno e não mais desviaria o olhar das nuvens, principalmente quando passam baixo e lépidas, ou circulando, e quando rajadas de vento as aproximam.

III

Se sensível fosse, veria noturno céu e ficaria paralisado, a pensar nas civilizações extramundo que se foram e virão, vez que cada brilho, sendo estrela ou galáxia, tenha seus planetários sistemas.

IV

Se sensível fosse, ficaria perturbado com as descargas elétricas, relâmpagos entre nuvens, que espirram de tempestades, que sempre hei de encontrar.

V

Ah, e o riacho? Se sensível fosse, não sairia do beira-rio a ver águas escoarem, principalmente com as chuvas torrenciais a enchê-lo, e claro, ficaria vendo peixes esquisitos e coloridos.

VI

Se sensível fosse, de verdade, comeria pão de queijo todo dia, que veio do queijo fabricado em artesanal modo, advindo de uma cabra ou de vaquinha.

VII

Se sensível fosse, amaria os periquitos, bem como amaria até os morcegos que na mais breve oportunidade entram à noite pelas janelas.

   VIII

Agora, só se sensível fosse, desligaria à noite a luz elétrica, e espalharia umas poucas velas pela casa, e dormiria quando o sol sumisse.

IX

Aí eu acordaria noutro dia bem cedo, e se inverno fosse, acenderia o fogão à lenha, e o dia inteiro ouviria dos fantasmas os seus causos de vida e morte.

X

Se sensível fosse, cada tatu ou mesmo tamanduá, ou outro animal, incluindo os passarinhos, seriam recebidos sem balas e não iriam à panela.

   XI

Mas não sou sensível. Sou brucutu. Faria sem dó guisado da onça e estrogonofe do tamanduá. Até São Francisco de Assis de mim fugiria, e Santo Tomás de Aquino de bronco me chamaria, e para longe levitaria Santa Teresa de Ávila…

     FIM

Autor do poema:  Kenio Barros de A. Nascimento (vulgo: Kênio de Ávila), em Araxá, 24 e 25/10/2018.

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2 comentários em “Poema: “Ode à Fazenda”

  1. Que poesia linda! Sentimo-nos como se estivéssemos na fazenda sentados na varanda, onde nossos antepassados contavam causos! Parabéns, Kenio, você disse tudo. Que saudades!
    Dirceu de Ávila.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Grato, sr. Dirceu! É uma honra contar com seu comentário. Todos nós trazemos uma fazenda cheia de causos no coração. Alguns como o senhor e meu pai (Heuser), por exempo, tiveram a oportunidade de nascer e, melhor, viver numa fazenda. Espero que boas coisas como essas retornem um
      dia. Obrigado mais uma vez!

      Curtir

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