Conto: “A menina e o Ajuricaba”

(Autor: Kênio Barros de Ávila Nascimento)

A menina e o Ajuricaba

Era então uma criança. Nos seus oito anos de vida, boa parte deles passados com seu pai à beira do Rio Solimões, pouco sofrera. Da mãe, morta dois anos depois dela nascer, guardara quase nenhuma lembrança. Só do belo e vago sorriso materno ela se recordava. Diziam que ela o tinha também. Quando o pai estava longe, vivia a perambular com suas amiguinhas e amiguinhos na vila; a nadar nos rios afluentes e nos iguarapés, nas várzeas; ou a brincar em torno da vila.

Como num dia qualquer, à espera do pai, ela estava perto de casa. À espreita, esperando pela visão paterna.

Naquele dia, como em outro igual, seu pai chegou. E vestia na ocasião uma amassada armadura leve, carregava um bacamarte francês, e portava espada e arcabuz a tiracolo.

Ela virou-se a tempo de ver a flecha fincar no elmo do seu pai: capitão português, que caiu à beira do rio caudaloso. E não foi o único oficial assassinado naquele crepúsculo. Assustada, a menina correu até ele, mas vozerio vindo da mata e corre-corre das mulheres em polvorosa a arrastaram até uma pequena embarcação de troncos retorcidos, improvisada e guiada por outros fugitivos. Sobreviveu ao ataque.

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Desceram na margem oposta de um rio afluente. Sofreu fome, frio, mosquitos. Enfim, quando chegaram a um outro povoado, ela foi reconhecida por sua irmã de criação, uma ihié-boah, “mocinha” em língua tikuna. Horas e horas depois, um barco a remo, não muito grande, passou e resgatou os sobreviventes, indo rio Solimões abaixo:

– Ihié-boah, onde vamos? … Painho, ele …?
– Dá a mão … o barco!

Na longa viagem que se seguiu rumo ao encontro com rio Negro, o barco passou por Vila de Ega, na foz do Tefé, onde a menina pode rever, do rio mesmo, a antiga fortaleza de onde seu pai fora o alferes da 5ª Companhia de Ordenanças há poucos anos.

– Ihié-boah, nós vamos pra casa antiga?
– Não, não … Só passar aqui. O barco vai pro Forte da Barra, no rio Negro.

Era então início de junho na Amazônia, quando os rios em geral são mais navegáveis. E uma friagem acabava de chegar.

A menina tremeu não só de frio, mas por medo, ao ver passar a primeira canoa, que a assustou:

– Calma, veja a ouheh [canoa] deles: … não são Manaós, nem amigos deles – disse-lhe Ihié-boah, tranquilizando-a.

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Às vezes, ao passar por canoas ou outros barcos, a tripulação estabelecia contato por gestos, sinais, acenos, berros em português, nheengatú, tukuna, tupi ou qualquer outra língua útil à comunicação, até o holandês.

Um dos sobreviventes, no barco, chegou a comentar com outros que há muito era sabido sobre a aliança das tribos dos Manaós com os holandeses, ao norte das fronteiras do reino no Brasil, e mesmo depois de muitas expedições punitivas serem enviadas por Portugal, nada mudou.

A barcaça passava ainda pela entrada do Lago Ipixuna, e mais a frente, perto da embocadura do Lago Coari, o barco parou num vilarejo de não mais que cem almas.

Os sobreviventes e a tripulação desceram. Foram finalmente assistidos por remédios e algum tratamento oferecido pelos índios Tapiras do lugar. O cura local, um jesuíta, disse que não havia médicos oficiais e por isso não havia como se fazer sangrias. Sorte que havia um curandeiro chinês, praticando sua arte multi-milenar.

O chinês administrou suas doses homeopáticas, e falou assim a um paciente, num excelente português:

— Usar assim: duas doses ao dia de natru muraricum; e três vezes ao dia de arnica montana até sarar completamente.

Tamanha sorte – encontrar um homeopata no caminho – alegrou os feridos e demais sobreviventes que retornaram animados ao barco no amanhecer seguinte para continuar a viagem quase pitoresca, mas exaustiva e longa.
Antes de embarcar, a tripulação e os índios locais renovaram o estoque de comida do barco até com tracajás e tapiocas.

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Seis dias depois, de tardinha, sob estranhas nuvens escuras, o barco avistou a terra dos índios Muras, o que significava que chegaria no dia seguinte ao forte da Barra do rio Negro.

De noite, quando o barco se aproximou muito da terra, o mistério foi desfeito: viam-se nuvens de fumaça. Labaredas queimavam a terra deles, línguas de fogo gigantescas se projetavam ao negro céu. A margem esquerda do rio ardia em alguns pontos. Ouviam-se fortes zumbidos, assovios de vento e ao longe talvez gritos humanos.

A menina se recolheu, abraçou as próprias pernas. Ihié-boah notou-lhe o incômodo, e lhe disse:

— Amanhã chegaremos e veremos nossa tia…
— Jura?
— Por tupana [Deus]!

No dia seguinte, ao chegar ao porto do Forte da Barra do Rio Negro, houve dificuldade para desembarcar pelo intenso vaivém de barcos, muitos sob a bandeira real de Portugal.

E no momento de atracar, ouviram-se gritos, seguidos de vivas, ecoando por todo o cais do porto, durante minutos.

A menina não entendeu, e perguntou a irmã mais velha, que lhe disse:

– Eles se renderam! Parece … Os Manaós…. acabou a guerra!

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Foram estas as últimas lembranças da moça sobre o ano da primeira falsa-rendição dos Manaós e seus aliados.

Oito anos depois, em dezembro de 1728, quando as chuvas costumavam lavar sem trégua o Forte São José da Barra do Rio Negro, esta menina, agora moça com dezesseis anos, depôs no inquérito governamental sobre os crimes dos indígenas capturados – e a moça seria uma das testemunhas-chave.

Ela se recordou daqueles acontecimentos ocorridos oito anos antes, e muito longe dali, iniciados no alto Solimões. E tais recordações foram relatadas vividamente às autoridades governamentais naquele fim de ano.

Durante os interrogatórios, pela primeira vez e última na vida, a jovem viu de perto o líder dos Manaós. Chegou a ouvir sua palavras, que ecoaram grave no recinto onde ele fez seu depoimento, emitindo frases seguras, desafiadoras e irônicas, dignas de um líder, apesar de rendido.

Ao ser ouvido, o líder dos Manaós teve seu interrogatório registrado, e segue abaixo uma parte da transcrição dos autos do processo, pois anotaram o seu depoimento:

“E o interrogatório público do Manaó pela promotoria governamental se iniciou:
– Tu és membro da tribo dos Manaós? – perguntou um promotor.
– Tu sabes que sim.
– E quem és tú?
– Meu nome é Ajuricaba.
– Infame, teu nome é. … Onde aprendestes o português?
– Com vocês, quando criança vivi anos nas proximidades do forte.
– E o holandês? Também falas holandês, não?
– Sim, também vivi nas fronteiras do norte, e convivia com eles …
– Não convives mais? Ou só comercializa com eles, inimigos da coroa portuguesa?
– E quem não é inimigo da coroa portuguesa!
– Como se atreves? … O que fizestes com os escravos negros … fugitivos de propriedade do reino, em teu poder?
– Meu poder? Eu os libertei.
– Como?
– Não faço escravos: só faço libertos…
– Cínico… pois aterrorizas com suas tribos outras tribos pacíficas, além de comprometer a paz nos domínios de Portugal.
– Eu …
– Diga-nos: Tu participaste da tentativa de cerco da Aliança dos Manaós a este Forte da Barra do Rio Negro há três anos, no ano de 1725?
– Sim, participei.
– E liderou?
– Sim, chamam-me chefe.
– Que seja. Tu serás transferido a Santa Maria de Belém do Grão-Pará a fim de ouvir tua sentença lá.
– E coloquem-no num barco real, onde continuará posto a ferros até chegar ao seu destino – completou o promotor.”

Meses depois, a moça tomou conhecimento por autoridades sobre o destino do índio Manaó; e ela, aturdida, chorou convulsivamente, pois sentiu pena dele.

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