Conto: “As sinfonias esquecidas”

Autor: Kenio B. A. Nascimento

As sinfonias esquecidas

Surgiu um androide – estilo antigo, de rodas – que guiou Pedro Moraes até o seu quarto, agora arrumado e pronto para recebê-lo.

Ao ficar sozinho no quarto, Pedro Moraes deixou-se cair de costas na cama de casal levitante e dormiu quase imediatamente, tamanho cansaço. Não da viagem, que foi curta e quase tranquila, mas dos preparativos, que foram bem estressantes.

Pedro Moraes dormiu a seguir por quase quinze horas, acordando na aurora de mais um dia marciano.

Ele vislumbrou boquiaberto a paisagem através da sua grande janela de titânio transparente: à esquerda, as colinas amareladas de Vacaruam estavam recobertas por uma névoa ora densa, ora translúcida, a depender do ângulo que luz solar a atingia, e do relevo das íngremes ladeiras à direita, no contraforte de Ladecartma, que a comprimia. Os holofotes da base se desligavam à medida que o sol subia no horizonte, mas antes criavam um efeito estranho, como se estivessem a varrer os confins da base em sintonia derradeira de uma peça de teatro cujos cenários eram cobertos ou feitos de fuligem extraterrestre cintilante.

Depois de levantar e tomar um banho, Pedro Moraes sentou-se próximo à janela novamente, e passou a refletir sobre o dia, como sempre fazia na Terra.

Tinha este positivo hábito auto inquisidor, herdado de sua mãe, espelhando-se ela em grandes personagens da História, como o notório “founding father” norte-americano, Benjamim Franklin, que fazia uma contabilidade moral ao fim de um dia ou no início de um novo dia, avaliando cada ação pessoal como boa ou má, e procurando a cada dia aumentar o saldo positivo desta conta.

Mas, se Pedro Moraes avaliava cada dia comum com um teste moral a la Franklin, o combinava com uma fria avaliação de seu desempenho profissional.

Perdido em seus pensamentos, Moraes mal notou a decolagem da nave em que viera, e que retornava à Terra agora. Quando percebeu, só viu a fumaça espalhada no pátio e que esta atingiu em cheio sua janela de titânio, escurecendo o seu quarto ao tampar os raios solares.

Tornou-se mais absorto ainda e agora ele avaliava o motivo desta viagem e o que esperar de sua estadia.

Lembrou-se de como recebeu uma ligação em seu implante telefônico, que só seus amigos e certos conhecidos tinham acesso.

Ao ver então a chamada de José Farias, há cinco dias terrestres atrás, Pedro Moraes jamais imaginou que estaria em Marte pouco depois. Logo ele que jamais teve qualquer atração por viagens interplanetárias.

Seu velho professor José Farias lhe disse em resumo: precisava da sua ajuda em triplo sentido. Sua presença como amigo; seu conhecimento em biologia; e sua expertise em música.

E, completou, dizendo que ele estava em Marte e era para lá que Pedro Moraes deveria ir às custas deles, jesuítas. E havia poucos, no mundo, que tinham tal saber.

Pedro Moraes aceitou de imediato, mas refletia agora se não foi imprudente, e deveria ter cravejado José Farias com inúmeras perguntas antes de ceder tal fácil:

– O velho e carismático José Farias me engabelou de novo… espero sair inteiro desta nova … aventura – e sorriu para si mesmo.

Pedro Moraes, violoncelista, membro de mais de uma filarmônica na Terra, poderia estar prestando seus serviços noutro lugar, ainda que fora do planeta-mãe, como nas Bases Lunares, ou nas Luas Jupiterianas, ou na cidadela humana em Ceres, ou nos céus Venuzianos, a bordo dos super-dirigíveis que lá flutuam sobre nuvens ácidas, ou em qualquer outro ambiente com objetivo de animar variadas platéias de humanos.

A seguir, levantou-se e caminhou à porta que se abriu a certa distância dele, saiu então do quarto indo em direção ao que parecia ser um corredor principal.

De lá, olhou ao redor e procurou uma tela com mapas em planta baixa e em 3D de toda a base em que estava:

– Vou circular por aí – disse Pedro Moraes em voz baixa a si mesmo.

Depois de muito caminhar pelas dependências da base, fato que lhe tomou o dia marciano inteiro, finalmente entrou numa denominada Sala de Mapas e analisou através de acesso em terceira dimensão o local do desastre, onde pairou virtualmente dentro e sobre o apocalipse que lá houve.

Bastou um olhar sobre as imagens de satélites do local, ou um sobrevoo em 3D virtual acima do planalto marciano de Pandoram, entre as crateras de Vespa e Valerium, para constatar o desastre: durante o dia marciano, a luz solar desvela o horror daqueles dias de morticínio: coisas abandonadas, domos translúcidos ultra resistentes quebrados, armas amontoadas, cinzas de incêndios, covas gigantescas onde se vê restos de corpos perto de piras incendiárias agora apagadas, e lixo, lixo e mais lixo humanos, como dejetos e tudo o mais. E à noite, constata-se o negrume naquele local, onde antes havia luzes possíveis de serem vistas da Terra, onde fervilhava uma cidade cujo brilho rivalizava com cidadela humana de Ceres – o último astro do Sistema Solar.

– Que desgraça … Foi pior que imaginei – falou baixo Pedro Moraes, sem notar que seu mentor estava atrás dele.

– Sei que é difícil, mas esqueça por um instante esta agora página virada da humanidade: temos algo para olhar a frente – disse José Farias.

– Tipo o quê?

– Meu caro Pedro Moraes, eu quero lhe falar de uma espetacular descoberta científica…

– Lá vêm os clichês: e você é sempre exagerado, professor José Farias. Tudo é superlativo para você, quando se trata de seus assuntos – disse Pedro Moraes.

– Caro, veja só, não estou aqui a serviço de ego nenhum, muito menos o meu. Se quisesse evitar fadiga, teria ficado em casa, a poucas quadras da Praça de São Pedro – rebate José Farias.

– E? – disse Pedro Moraes.

– Bem, se não acredita, veja por si mesmo: o que pensas ser isto? – perguntou José Farias.

– Um pergaminho? – inquere Pedro Moraes.

– Sim e não. O pergaminho era feito em geral da pele de caprinos. Trata-se de um equivalente ao pergaminho, com a mesma função de registrar escritas para posteridade, mas feito de outro animal, um “aasddna”. Aasddna é a “marcianus caprina”. Ela não existe mais – disse o mentor José Farias. – Não na Terra. Trata-se de um “pergaminho” de uma “cabra” marciana. De 50 mil anos atrás – completou ainda José Farias.

– Bom, então vocês descobriram indícios de vida alienígena já extinta em Marte, pronto? – disse concluindo Pedro Moraes

– São provas, não indícios. E não se trata de só de vida alienígena em Marte, mas de vida extraterrestre humana! – disse José Farias.

– Certo, certo, e qual o motivo de me trazer aqui? Vocês encontraram mais animais marcianos, ou o quê? – disse um pouco alterado Pedro Moraes.

– Mas não foi este o único motivo. Foi o pergaminho marciano, o seu conteúdo!

– Conteúdo? Mas eu não sou filólogo, meu caro José Farias! Nem linguista!

– Vou direito ao ponto: nossos tradutores já decifraram o pergaminho, está numa linguagem próxima aos famosos hieróglifos Maias, encontrados ainda hoje na região da Guatemala. Na primeira parte dos pergaminhos contêm o Mahabharata! Que é livro sagrado hindu, composto por quase noventa mil versos, originalmente escrito em sânscrito na Terra – disse José Farias.

– … E cujo o Bhagavad Gita é apenas um capítulo deste livro colossal. Minha ex-mulher era nascida em Nova Déli, já me falou a respeito – completou Pedro Moraes.

– Foi o que encontramos, os “originais”, a fonte mais autêntica e completa! Nós o chamamos de Mega Mahabharata, com talvez mais de um milhão de versos. Mais de dez vezes extenso que o equivalente terrestre – disse José Farias.

– Em Marte? De 50 mil anos atrás? E na linguagem próxima a dos Maias? – inqueriu Pedro Moraes.

– Sim, e está é só a primeira parte do conteúdo.

– E o resto? – disse Pedro Moraes.

– Na segunda parte (e última) encontramos no meio delas, encontramos o quê acreditamos ser partituras, partituras de algo próximo às nossas sinfonias. Sim, sinfonia marciana: ancestral, antiga, arquetípica, mas uma verdadeira sinfonia de Marte! – sorriu José Farias.

– Meu Deus… – disse o ateu Pedro Moraes.

– Deixe-me ver estas partituras de que você falou — disse exausto Pedro Moraes.

– OK, veja estas, são até agora mais de vinte… Leia esta você mesmo… Nós conseguimos traduzir algumas, mas poucas, vejam esta que chamamos: marciana nº3.

E assim Pedro Moraes examinou por quase uma hora aquela primeira tradução.

– Meu Deus, como é bela e … me lembra … é como se Beethoven fosse marciano! – disse Pedro Moraes.

– Vai ver que era! — brincou José Farias.

– E o restante, as demais partituras…?

– Aí é que você entra, meu amigo: caberá a você coordenar a equipe que traduzirá todas as outras partituras; descobrirá como funcionava exatamente os instrumentos musicais de Marte; e tentará reproduzi-los hoje, gravando o resultado e o apresentado uma das sinfonias perante o nosso Papa – disse José Farias.

– Você disse que o Papa pessoalmente sabe disso? – disse o incrédulo Pedro Moraes.

– Sim, ele que me enviou aqui. E a você também. Mas chega de conversa por hoje, estou exausto. Até amanhã, vou dormir. Fique com Deus!

– Até. Mas ficarei lendo algumas partituras meio traduzidas, vou analisá-las melhor… — disse Pedro Moraes.

– Boa noite! – disse ao sair José Farias.

#

Uma cápsula de emergência ejetou-se da base marciana poucas horas depois. Nela ia em fuga Pedro Moraes. Ela ficou à deriva no espaço por tempo incerto, tentando alcançar a Terra.

Ao chegar, ele correu à imprensa para informar do que ocorria em Marte. Marcaram uma entrevista coletiva para uns dias depois, mas Pedro Moraes teve um surto psicótico em público, o que lhe fez perder a sua credibilidade e ninguém lhe deu ouvidos.

Ele, Pedro Moraes, morreu dois anos depois numa clínica na Suíça, e suas últimas palavras delirantes gravadas em áudio foram estas frases em que ele repetia a si, quase sem parar, até falecer:

– Segredo: Tchaikovsky também era marciano … eu juro … Segredo: Tchaikovsky também era marciano … eu juro … Segredo: Tchaikovsky também era marciano … eu juro … Segredo: Tchaikovsky também era marciano … eu juro.

Poema: “Ode à Fazenda”

Ode à Fazenda

I

Se sensível fosse, talvez olhasse à natureza e me admirasse da levitação de um beija-flor, de uma vaca desgarrada a pastar, ou mesmo rastros de onças, que sempre hei de encontrar.

II

Se sensível fosse, olharia ao céu diurno e não mais desviaria o olhar das nuvens, principalmente quando passam baixo e lépidas, ou circulando, e quando rajadas de vento as aproximam.

III

Se sensível fosse, veria noturno céu e ficaria paralisado, a pensar nas civilizações extramundo que se foram e virão, vez que cada brilho, sendo estrela ou galáxia, tenha seus planetários sistemas.

IV

Se sensível fosse, ficaria perturbado com as descargas elétricas, relâmpagos entre nuvens, que espirram de tempestades, que sempre hei de encontrar.

V

Ah, e o riacho? Se sensível fosse, não sairia do beira-rio a ver águas escoarem, principalmente com as chuvas torrenciais a enchê-lo, e claro, ficaria vendo peixes esquisitos e coloridos.

VI

Se sensível fosse, de verdade, comeria pão de queijo todo dia, que veio do queijo fabricado em artesanal modo, advindo de uma cabra ou de vaquinha.

VII

Se sensível fosse, amaria os periquitos, bem como amaria até os morcegos que na mais breve oportunidade entram à noite pelas janelas.

   VIII

Agora, só se sensível fosse, desligaria à noite a luz elétrica, e espalharia umas poucas velas pela casa, e dormiria quando o sol sumisse.

IX

Aí eu acordaria noutro dia bem cedo, e se inverno fosse, acenderia o fogão à lenha, e o dia inteiro ouviria dos fantasmas os seus causos de vida e morte.

X

Se sensível fosse, cada tatu ou mesmo tamanduá, ou outro animal, incluindo os passarinhos, seriam recebidos sem balas e não iriam à panela.

   XI

Mas não sou sensível. Sou brucutu. Faria sem dó guisado da onça e estrogonofe do tamanduá. Até São Francisco de Assis de mim fugiria, e Santo Tomás de Aquino de bronco me chamaria, e para longe levitaria Santa Teresa de Ávila…

     FIM

Autor do poema:  Kenio Barros de A. Nascimento (vulgo: Kênio de Ávila), em Araxá, 24 e 25/10/2018.

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